Cadê o novo ídolo da música brasileira que estava aqui?
Desde que programas de calouros foram repaginados como reality shows, muitos talentos surgiram, mas poucos provaram de fato o gosto do sucesso
Está aberta a temporada de caça a novos astros da música. A partir desta quinta-feira, o The Voice Brasil começa o desfile dos calouros que só têm a voz para convencer os técnicos de que são dignos de uma vaga no programa. Das audições às cegas até a final, serão três meses de disputa em busca de um prêmio em dinheiro e outro de valor incalculável: o contrato com uma gravadora. Mas a assinatura do documento que garante a produção de um CD (o primeiro, para a maioria) é apenas o degrau inicial para o sonho de viver do seu talento. É quando começa a luta para sair da TV e chegar aos ouvidos do público. A escalada é árdua, o número de concorrentes, muito maior do que as poucas dezenas da competição, e a persistência, obrigatória. Mais de cem cantores já passaram pelo palco do reality show nas duas temporadas anteriores, e poucos conseguiram manter-se em evidência. Se consideradas as diferentes nomenclaturas que esse tipo de programa recebe (Ídolos, The X Factor, American Idol etc.), foram milhares os que caíram no limbo do esquecimento – mesmo os vitoriosos.
Para aproveitar ao máximo a repercussão enquanto ainda se sabe de quem é aquela voz – a Globo e a Universal decidiram que, nesta nova edição do The Voice Brasil, todas as canções apresentadas durante as audições às cegas serão imediatamente disponibilizadas no iTunes. A novidade foi revelada ao site de VEJA pelo diretor artístico da gravadora, Daniel Silveira. “É o tipo de compra por impulso. O programa acabou, a música tem de estar no ar. O maior volume de vendas é registrado nesse momento”, explica. Não por acaso, a primeira fase costuma ser a mais emocionante de todas, e a que rende as melhores audiências ao programa. Logo, esta pode ser uma estratégia valiosa para garantir uma exposição ainda maior dos competidores.
Já foi mais fácil. Na década de 1940, quando Ary Barroso comandava o embrião do programa de calouros no rádio, qualquer um que se destacasse tinha sucesso praticamente garantido. Some à repercussão, claro, o fato de que eles já estavam literalmente dentro da rádio e ganhavam apoio quase automático para ter seus trabalhos divulgados. Foi assim, por exemplo, com Luiz Gonzaga, o Rei do Baião que hoje dispensa apresentações. O mesmo se repetiu, em proporções ainda maiores, com os festivais de música que dominaram a televisão entre os anos 1960 e 70. Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil são frutos dessa produção. Em apresentações ao vivo, eles levavam à loucura uma plateia que ganhava um folheto para acompanhar (e cantar junto) a composição que seria apresentada. A conquista quase imediata de fãs lembra em muito a comoção da torcida que hoje se vê no The Voice Brasil. A diferença é que os amadores de outrora se tornaram os artistas mais renomados do país – insígnia ainda distante dos calouros atuais.
“No passado, só os festivais tinham a finalidade de projetar novos talentos, era o único espaço para esses artistas. A falta de opção fazia com que a qualidade dos que se inscreviam fosse muito alta. Os programas tinham filtros rígidos, só os melhores dos melhores subiam ao palco”, compara o produtor e empresário Rick Bonadio. Os tempos são outros, frisa. Em um mundo onde um novo astro surge até com vídeo caseiro publicado na internet, a forma de projetar artistas é infinita, o que torna impossível reunir os mais talentosos em um único programa – muitos sequer se candidatam. Em contrapartida, se aqueles festivais fossem ao ar nos dias de hoje, a audiência seria ínfima, aposta Bonadio. “Fazer um programa de TV é diferente de fazer algo para o artista dar certo. O espectador não quer mais ver gente séria, cantando sério. Quer uma atração ágil e divertida”, observa ele, comparando The Voice com SuperStar – que decepcionou no Ibope, mas garantiu espaço à vencedora Malta nas rádios. “O primeiro é mais entretenimento, com estilo de músicas variado e disputa acirrada. O outro está preocupado em vender o artista, logo, é menos atrativo.”

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